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A morte como conselheira

Lembrar da morte para ordenar a vida: os dois velórios, Ivan Ilitch e a vida sem autoria, o memento mori de Sêneca e Marco Aurélio, o último homem de Nietzsche e o pêndulo de Schopenhauer — e por que o bom conselho é viver cada dia como um dos poucos, não como o último.

Augusto VillelaLeitura de 7 minAula 22 de 24Livro: Capítulo 24

Resumo da aula

  • A morte virá num dia comum, e o mundo não vai parar.
  • Lembrar disso de propósito não é morbidez: é o memento mori dos antigos, uma higiene mental que devolve a vida às mãos de quem a vive.
  • Ivan Ilitch mostra o risco de seguir o roteiro sem autoria; Nietzsche, o da vida morna; Schopenhauer, o pêndulo do desejo que nunca se sacia.
  • Diante do fim, o pêndulo para e as coisas voltam ao tamanho verdadeiro.

Neste artigo

  1. Um dia comum
  2. O tempo que a doença longa dá
  3. Quando a gente vira a referência
  4. Ivan Ilitch: a vida mais comum e mais terrível
  5. O roteiro sem autoria
  6. Memento mori: higiene mental
  7. Nietzsche e o último homem
  8. O pêndulo de Schopenhauer
  9. Um dos poucos dias, não o último

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Perguntas frequentes

O que é memento mori?

Memento mori é a expressão latina para "lembra-te de que vais morrer", o remédio que os antigos inventaram para ordenar a vida. Não era morbidez, era higiene mental. Sêneca, em Sobre a Brevidade da Vida, escreveu que o problema não é ter pouco tempo, e sim desperdiçar muito. Marco Aurélio anotava, num acampamento de guerra, que em breve teria esquecido tudo e todos o teriam esquecido; usava isso para se libertar, não para se desesperar. A versão barata das redes diz "ninguém vai lembrar mesmo, então relaxa" e esvazia o mesmo fato. O estoico lembra da morte para viver com mais gravidade e retidão, em dose de sal.

Qual a lição de A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói?

Tolstói escreveu a novela em 1886, depois de achar a própria vida vazia no auge da fama. Ivan Ilitch é um juiz que fez tudo certo pelos critérios do mundo: carreira respeitável, casamento conveniente, casa decorada como mandava a moda, conflitos evitados. Ao adoecer, chega a pergunta que evitou a vida inteira: e se tudo tiver sido um erro? A vida dele foi "a mais simples, a mais comum e a mais terrível". O problema não é o roteiro, que é bom, mas a falta de autoria: Ivan nunca perguntou se aquilo era dele. A pergunta que salva é se isso faz sentido para mim, diante de Deus e da minha consciência.

Por que não viver cada dia como se fosse o último?

Porque, levado ao pé da letra, o "último dia" dispensa todo dever: ninguém paga financiamento, estuda ou cuida de quem depende dele se amanhã não existe. O conselho popular produz gente que abandona compromissos. O bom conselho é o contrário: viver cada dia como um dos poucos que você tem, justamente porque o tempo é curto e precioso. É isso que leva a plantar árvore, criar filho e honrar a palavra. Diante da finitude, o pêndulo do desejo descrito por Schopenhauer para, o urgente vira ridículo e o adiado vira urgente. A morte é a conselheira que nunca mente e nunca bajula: a vida é sua e curta.

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  22. 22 A morte como conselheira
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Material do curso O Homem Essencial, de Augusto Villela.← Voltar ao Blog
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