Viver sem mentiras
A mentira resolve um problema momentâneo e cria uma dívida permanente com a verdade. As três frentes da verdade: não mentir, não viver uma vida emprestada e pensar por conta própria — com Soljenítsin, a dissonância cognitiva, a exceção da cortesia, Ivan Ilitch, Kierkegaard, Arendt e Mill.
Resumo da aula
- A mentira resolve o momento e abre uma dívida permanente com a verdade, que quase sempre é paga por outra pessoa.
- A verdade se cobra em três frentes: não mentir, começando pelo piso de Soljenítsin; não viver uma vida emprestada, como Ivan Ilitch; e pensar por conta própria, sem entregar a consciência a nenhum grupo.
- O desconforto da dissonância é um alarme a ser ouvido, não desligado.
- E não mentir não é ser brutal: verdade no conteúdo, cuidado na forma.
Neste artigo
- Uma mentirinha ao telefone
- A dívida com a verdade
- As três frentes
- Soljenítsin e o piso
- O alarme de incêndio da alma
- A exceção da cortesia
- A vida emprestada
- Autenticidade que lapida
- A consciência é intransferível
- O silêncio que pesa
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Perguntas frequentes
O que Soljenítsin propôs no ensaio Não viver de mentiras?
Aleksandr Soljenítsin, sobrevivente dos campos de trabalho forçado de Stálin, escreveu em 1974 que os grandes sistemas de opressão do século vinte não se sustentaram só porque tinham monstros no comando, mas porque milhões de pessoas comuns repetiam diariamente mentiras que sabiam ser falsas. Cada uma achava que a sua mentirinha não pesava nada; somadas, sustentaram a barbárie. A saída que ele propõe não exige que o cidadão comum derrube o tirano. Exige que a mentira, ao menos, não passe por ele. É um piso ao alcance de qualquer pessoa: antes de tentar dizer toda a verdade, parar de dizer o que se sabe ser falso.
O que é dissonância cognitiva?
Dissonância cognitiva é o conceito formulado pelo psicólogo Leon Festinger em 1957 para o mal-estar que surge quando o que você faz briga com o que você diz acreditar. Ele aparece como culpa, irritação ou a inquietação de estar sempre devendo algo a si mesmo. A maioria das pessoas resolve esse desconforto pelo caminho errado: em vez de corrigir a conduta, ajusta a crença para justificar o que já fez. Dostoiévski intuiu o mesmo ao escrever que quem mente a si mesmo acaba incapaz de distinguir a verdade dentro de si. A dissonância funciona como um alarme de incêndio da alma, que deve ser ouvido, não desligado.
O que é o imbecil coletivo, segundo Olavo de Carvalho?
Para o filósofo Olavo de Carvalho, o imbecil coletivo não é alguém sem instrução, e sim quem, incorporado a um grupo, deixa de examinar a realidade por conta própria e passa a repetir os consensos do meio. A ideia dialoga com Hannah Arendt, que, ao cobrir o julgamento de um responsável pela logística do Holocausto, encontrou não um monstro, mas um homem medíocre que só cumpria ordens. Por isso Arendt tratou o pensar como ato moral. Já o idiota útil, expressão bem mais antiga, é quem pensa que conduz uma causa quando está sendo conduzido por ela. A consciência é intransferível: cada caso se julga em primeira pessoa.
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- 1 Quem você quer ser
- 2 Viver sem mentiras
- 3 A força do bom
- 4 Os dias iguais e os dez segundos
- 5 A cidadela interior
- 6 O corpo que lhe foi confiado
- 7 A mente é um jardim
- 8 A mesa em que você se senta
- 9 O não que preserva
- 10 Como tratar as pessoas
- 11 Quem forma alguém
- 12 A aliança administrada
- 13 Competência antes da paixão
- 14 Dinheiro: servo, não senhor
- 15 Os dois lados da mesa
- 16 Quando tudo der errado
- 17 Pensar sem ser enganado
- 18 O homem e a cidade: liberdade e responsabilidade
- 19 A mentira que contamos a nós mesmos
- 20 Hoje é o milagre
- 21 Para que você foi feito
- 22 A morte como conselheira
- 23 Grandes pensadores do nosso tempo
- 24 O que fica